Endometriose e infertilidade: qual é a relação?
Entenda como a endometriose pode afetar a fertilidade, quando ela dificulta a gravidez e quais são os tratamentos disponíveis para aumentar as chances de gestação.
8/13/20264 min read
A endometriose é uma das doenças ginecológicas mais frequentes em mulheres em idade reprodutiva e uma importante causa de infertilidade. Estima-se que 25% a 50% das mulheres com dificuldade para engravidar tenham endometriose, embora muitas delas não apresentem sintomas importantes.
Apesar dessa associação, é importante saber que ter endometriose não significa que a gravidez será impossível. Atualmente, existem diversas estratégias capazes de aumentar as chances de gestação, desde tratamentos menos invasivos até técnicas de reprodução assistida.
O que é a endometriose?
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento interno do útero (endométrio) cresce fora da cavidade uterina, principalmente nos ovários, trompas, peritônio e, em alguns casos, intestino e bexiga.
Esse tecido responde aos hormônios do ciclo menstrual, provocando um processo inflamatório que pode causar dor, aderências e alterações no funcionamento dos órgãos pélvicos.
Os sintomas mais comuns incluem:
cólicas menstruais intensas;
dor durante a relação sexual;
dor para evacuar ou urinar durante a menstruação;
dor pélvica crônica;
dificuldade para engravidar.
Entretanto, algumas mulheres descobrem a doença apenas durante a investigação da infertilidade.
Como a endometriose pode dificultar a gravidez?
Não existe apenas um mecanismo responsável pela infertilidade. A doença pode interferir na fertilidade de diferentes maneiras ao mesmo tempo.
Alteração da anatomia da pelve
A inflamação pode levar à formação de aderências, dificultando o encontro entre o óvulo e o espermatozoide ou comprometendo o funcionamento das trompas.
Redução da qualidade dos óvulos
Em algumas pacientes, principalmente na presença de endometriomas (cistos ovarianos relacionados à endometriose), pode ocorrer redução da reserva ovariana e piora da qualidade dos óvulos.
Ambiente inflamatório
A endometriose provoca um aumento de substâncias inflamatórias dentro da cavidade pélvica, criando um ambiente menos favorável para a fecundação e o desenvolvimento inicial do embrião.
Alterações na implantação
Alguns estudos sugerem que alterações hormonais e inflamatórias podem reduzir a receptividade do endométrio, dificultando a implantação embrionária, embora esse mecanismo ainda seja motivo de pesquisa.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa com uma avaliação clínica detalhada.
Além da história e do exame físico, os exames mais utilizados são:
ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal (quando indicada);
ressonância magnética da pelve em casos selecionados.
É importante destacar que um ultrassom ou uma ressonância normais não excluem completamente a presença de endometriose, principalmente nas formas superficiais da doença.
Em algumas situações, a laparoscopia continua sendo necessária para confirmação diagnóstica e tratamento.
Toda paciente precisa operar?
Não.
Essa é uma das maiores mudanças no tratamento da endometriose nos últimos anos.
Antigamente, a cirurgia era frequentemente realizada logo após o diagnóstico. Hoje sabemos que a decisão deve ser individualizada.
Fatores como:
idade da mulher;
reserva ovariana;
intensidade da dor;
localização da doença;
tempo de infertilidade;
presença de outros fatores de infertilidade do casal
devem ser considerados antes de indicar uma cirurgia ou partir diretamente para a reprodução assistida.
Além disso, a cirurgia para retirada de endometriomas pode reduzir a reserva ovariana em algumas mulheres, motivo pelo qual ela deve ser cuidadosamente indicada.
Quais são os tratamentos para engravidar?
O tratamento depende de cada caso.
Coito programado e inseminação intrauterina (IIU)
Podem ser opções em mulheres jovens com doença mínima ou leve, trompas pérvias e boa reserva ovariana.
Normalmente, recomenda-se limitar a inseminação intrauterina a até três ou quatro tentativas antes de reavaliar a estratégia.
Fertilização in vitro (FIV)
A FIV é atualmente o tratamento com maiores taxas de sucesso para muitas mulheres com endometriose, especialmente quando:
existe comprometimento das trompas;
há idade materna mais avançada;
a reserva ovariana está reduzida;
houve falha de tratamentos anteriores;
coexistem outros fatores de infertilidade, como alterações no espermograma.
Em muitos casos, optar diretamente pela FIV pode oferecer maiores chances de gravidez e evitar cirurgias que poderiam comprometer ainda mais a função ovariana.
Endometriose significa infertilidade?
Não.
Muitas mulheres com endometriose engravidam espontaneamente, enquanto outras podem precisar de tratamento para alcançar a gestação.
O mais importante é realizar uma avaliação individualizada, considerando não apenas a doença, mas também a idade da mulher, a reserva ovariana, a fertilidade do parceiro e o tempo de tentativas.
Quanto mais cedo essa investigação é realizada, maiores costumam ser as possibilidades de escolher a estratégia mais adequada.
Conclusão
A endometriose é uma doença complexa e uma das principais causas de infertilidade feminina, mas isso não significa que a gravidez seja impossível. Atualmente, existem diferentes opções terapêuticas, desde tratamentos menos invasivos até técnicas de reprodução assistida, que permitem excelentes resultados quando bem indicadas.
Se você apresenta sintomas sugestivos de endometriose ou está tentando engravidar sem sucesso, procure avaliação especializada para definir a melhor estratégia para o seu caso.
Resumo
A endometriose pode dificultar a gravidez por causar inflamação, aderências e alterações na função ovariana e no ambiente reprodutivo. O tratamento deve ser individualizado e pode incluir cirurgia, inseminação intrauterina ou fertilização in vitro, conforme a idade, a reserva ovariana e as características de cada paciente.
Dr. Luís Felipe Dias
CRM 163.288
Urologia e Reprodução Humana
