Azoospermia: espermograma zerado é o fim?

Azoospermia tem cura? Entenda o que significa o espermograma zerado, as causas, os exames e as chances de ter filhos com tratamento.

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Dr. Luís Felipe Dias – CRM-SP 163.288 | RQE 78.089

9/7/20265 min read

man sitting in the top of the mountain
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A ausência de espermatozoides no ejaculado é chamada de azoospermia. Ela pode acontecer por diferentes motivos: em alguns homens, os espermatozoides são produzidos, mas existe uma obstrução que impede sua saída; em outros, existe uma alteração na própria produção dentro dos testículos.

Por isso, um espermograma “zerado” não encerra a investigação. Ele é o ponto de partida para descobrir a causa e entender quais possibilidades existem para aquele paciente e para o casal.

O que é azoospermia?

A azoospermia é definida pela ausência de espermatozoides no ejaculado. É encontrada em aproximadamente 1% dos homens e em 10–15% dos homens com infertilidade.

Antes de estabelecer definitivamente o diagnóstico, é importante que a análise seminal seja realizada adequadamente e que o material seja avaliado após centrifugação, procurando inclusive quantidades muito pequenas de espermatozoides.

A confirmação em uma nova amostra também é importante. Uma análise cuidadosa do material centrifugado pode, em alguns casos, identificar raros espermatozoides em homens que inicialmente receberam o diagnóstico de azoospermia.

Nem toda azoospermia é igual

Uma das etapas mais importantes da investigação é entender se estamos diante de uma azoospermia obstrutiva ou não obstrutiva.

Azoospermia obstrutiva

Na azoospermia obstrutiva, os testículos continuam produzindo espermatozoides, mas existe algum bloqueio no caminho entre o local onde eles são produzidos e o ejaculado.

Essa obstrução pode ser congênita ou adquirida e estar localizada no epidídimo, nos ductos deferentes ou nos ductos ejaculatórios. Uma causa adquirida frequente é a vasectomia, situação em que a reversão de vasectomia pode ser uma alternativa.

Um exemplo é a ausência congênita dos ductos deferentes, condição que pode estar associada a alterações no gene CFTR e que exige investigação específica.

Como a produção testicular está preservada, dependendo da causa pode ser possível realizar uma reconstrução microcirúrgica ou recuperar espermatozoides diretamente do epidídimo ou testículo para utilização em reprodução assistida.

Azoospermia não obstrutiva

Na azoospermia não obstrutiva (ANO), existe comprometimento da produção de espermatozoides.

As causas são variadas e podem incluir alterações genéticas, síndrome de Klinefelter, microdeleções do cromossomo Y, criptorquidia, alterações hormonais, quimioterapia, orquite, torção testicular, exposição a agentes gonadotóxicos e outras condições capazes de comprometer a função dos testículos.

O uso de testosterona ou esteroides anabolizantes também pode suprimir os hormônios que estimulam os testículos e levar a uma redução importante da produção espermática ou até à azoospermia.

Leia também: testosterona pode causar infertilidade masculina?

Como investigar um espermograma zerado?

Encontrar azoospermia no espermograma não revela, sozinho, por que os espermatozoides estão ausentes.

A investigação começa com a história clínica e o exame físico. São avaliados, entre outros aspectos, o tamanho e a consistência dos testículos, a presença dos ductos deferentes, varicocele e antecedentes como criptorquidia, infecções, cirurgias, trauma, quimioterapia e uso de medicamentos ou hormônios.

Os exames hormonais também são fundamentais. FSH e testosterona estão entre os principais e, dependendo do caso, podem ser complementados por LH, prolactina, estradiol e outros exames.

Por exemplo, FSH elevado associado a testículos menores pode sugerir comprometimento da produção espermática. Já testículos de volume preservado e determinados perfis hormonais podem aumentar a suspeita de uma obstrução. Nenhum desses achados, entretanto, deve ser interpretado isoladamente.

A avaliação pode ainda incluir ultrassom testicular, exames de imagem específicos e investigação genética.

Em homens com azoospermia não obstrutiva, por exemplo, podem ser indicados cariótipo e pesquisa de microdeleções do cromossomo Y. A genética é particularmente importante porque determinadas alterações não apenas ajudam a identificar a causa, mas também podem modificar o prognóstico e a estratégia de tratamento.

Leia também: como entender o espermograma.

Azoospermia tem tratamento?

Não existe um único tratamento para azoospermia. A estratégia depende da causa.

Algumas alterações hormonais podem ser tratadas com o objetivo de restabelecer a estimulação dos testículos e a produção espermática.

Na azoospermia obstrutiva, determinados pacientes podem ser candidatos a reconstruções microcirúrgicas. Quando isso não é possível ou não é a melhor estratégia para o casal, os espermatozoides podem ser recuperados diretamente do epidídimo ou do testículo.

Existem diferentes técnicas para isso, entre elas PESA, TESA, TESE e micro-TESE. A escolha depende principalmente do tipo de azoospermia e das características individuais do paciente.

Os espermatozoides recuperados podem posteriormente ser utilizados em técnicas de reprodução assistida, especialmente a ICSI, na qual um espermatozoide é introduzido diretamente no óvulo.

Se não existem espermatozoides no sêmen, eles podem existir no testículo?

Sim.

Essa é uma das informações mais importantes para entender a azoospermia não obstrutiva.

A ausência de espermatozoides no ejaculado não significa necessariamente que a produção seja completamente inexistente em todas as regiões dos testículos.

Em alguns homens, a produção espermática é extremamente reduzida e pode ocorrer apenas em pequenos focos de tecido testicular. A literatura mostra que a espermatogênese pode ser heterogênea, o que também ajuda a explicar por que uma amostra isolada do testículo nem sempre representa todo o órgão.

É justamente nesse cenário que técnicas específicas de recuperação espermática podem ser consideradas.

O que é micro-TESE?

A micro-TESE (extração microcirúrgica de espermatozoides do testículo) é uma das principais técnicas utilizadas para recuperação de espermatozoides em homens com azoospermia não obstrutiva.

Durante o procedimento, o testículo é avaliado com auxílio de magnificação microscópica, permitindo procurar regiões do tecido com maior possibilidade de conter focos de produção espermática.

Ainda assim, não existe garantia de encontrar espermatozoides.

A chance de recuperação varia de acordo com a causa da azoospermia, alterações genéticas, características testiculares e padrão de produção espermática. Por isso, a indicação precisa ser individualizada e discutida antes do procedimento.

Conheça as técnicas de recuperação de espermatozoides, como PESA, TESA, TESE, micro-TESE e mapeamento testicular, na página de tratamentos de infertilidade masculina.

Azoospermia significa que não é possível ter filhos?

Não necessariamente.

Há algumas décadas, encontrar zero espermatozoides no ejaculado significava opções muito mais limitadas. O desenvolvimento da reprodução assistida, especialmente da ICSI, e das técnicas de recuperação espermática modificou significativamente esse cenário. A própria literatura histórica sobre azoospermia destaca essa mudança na abordagem desses pacientes.

Alguns homens apresentam causas potencialmente tratáveis. Outros podem ter produção espermática preservada atrás de uma obstrução. E, mesmo na azoospermia não obstrutiva, pode existir produção focal dentro dos testículos.

Por outro lado, existem situações em que a recuperação de espermatozoides não será possível. Por isso, mais importante do que interpretar apenas o “zero” do espermograma é identificar a causa da azoospermia e avaliar o contexto reprodutivo do casal.

A partir dessa investigação, é possível discutir de forma realista e individualizada quais caminhos podem ser considerados.

Perguntas frequentes sobre azoospermia

Azoospermia tem cura?

Depende da causa. Em alguns casos, como alterações hormonais tratáveis ou obstruções corrigíveis por microcirurgia, os espermatozoides podem voltar ao sêmen. Em outros, o objetivo é recuperar espermatozoides diretamente do testículo para uso em ICSI. A avaliação define quais opções existem para cada homem.

Meu marido tem azoospermia. Podemos ter filhos biológicos?

Em muitos casos, sim, mas não há garantia. Na azoospermia obstrutiva, a recuperação de espermatozoides costuma ser possível. Na azoospermia não obstrutiva, a micro-TESE encontra espermatozoides em cerca de metade dos homens, em média, com grande variação conforme a causa. A idade e a fertilidade da parceira também fazem parte do planejamento.

Um único espermograma zerado confirma a azoospermia?

Não. O diagnóstico deve ser confirmado em pelo menos duas amostras, com análise do material após centrifugação, porque alguns homens têm raros espermatozoides que só aparecem nessa avaliação mais cuidadosa.

Testosterona e anabolizantes podem causar azoospermia?

Sim. O uso de testosterona ou anabolizantes pode suprimir os hormônios que estimulam os testículos e zerar a produção de espermatozoides. Entenda melhor em testosterona e infertilidade masculina.

Dr. Luís Felipe Dias
Médico urologista – CRM-SP 163.288 | RQE 78.089
Urologia e Reprodução Humana